DIGNIDADE MÉDICA MACULADA

14 de maio de 2017 - 4 minutes read
A repercussão da foto divulgada em uma rede social em que estudantes de medicina de uma universidade do Espírito Santo aparecem com jalecos, calças abaixadas, fazendo gesto que remete à genitália feminina, abre discussão acerca da postura que os profissionais devem ter, especialmente em tempos de redes sociais, em que imagens e textos tornam-se virais.
atitude viola a dignidade médica, causando repulsa à conduta praticada e levantando questionamentos sobre a formação moral de futuros médicos para exercício da profissão, fazendo-nos questionar o ensino da ética médica nos cursos de medicina. Em pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), intitulada “Perfil dos Médicos no Brasil”, mostra que 16,5% dos profissionais brasileiros sequer conhecem o Código de Ética Médica.
Atividade eminentemente humanitária e social, o exercício profissional da medicina tem como pilar fundamental a relação médico-paciente. O alvo dessa ligação deve voltar-se para o homem e sua saúde. Com a finalidade de fortalecer a formação ética dos estudantes de medicina, o “Código de Ética do Estudante de Medicina” foi criado a partir de normas adaptadas do Código de Ética Médica e indicam aos estudantes, o caminho a ser seguido para o sucesso profissional e o apreço da sociedade. Nele, está contido conceitos e preceitos éticos de compromisso com a saúde individual e coletiva, assim como direitos e deveres para o relacionamento com o paciente e a profissão.
Um de seus princípios fundamentais, presente no primeiro artigo do Código, é que a escolha da medicina como profissão ”pressupõe a aceitação de preceitos éticos e de compromissos com a saúde do homem e da coletividade, sem preconceito de qualquer natureza”. Princípio violado pelos estudantes da Universidade de Vila Velha, no Espírito Santo. Outras normas fundamentais são: “manter absoluto respeito pela vida humana; exercer suas atividades com respeito às pessoas, às instituições e às normas vigentes”.
Vimos que a medicina possui regras específicas, como as do Código de Ética dos Estudantes de Medicina. A atitude dos estudantes foi reprovada por entidades médicas, e gerou uma denúncia apresentada pelo Sindicato dos Médicos do Espirito Santo (Simes) ao Conselho Regional de Medicina (CRM-ES). Nesse caso, em reunião do CRM com a Universidade, ficou decidido que a instituição de ensino ficará responsável pela punição compatível com o ato de seus discentes.    
 
Atitudes como a registrada tem consequências éticas sérias, especialmente para a reputação da classe. Os estudantes sequer chegaram à atuação profissional e se mostram desrespeitosos com a dignidade humana e à conduta profissional e, diante da viralização da imagem e das críticas crescentes, acabam por macular toda a classe médica, pois gera um julgamento midiático e social que, infelizmente, não elucida que condutas antiéticas são praticadas apenas por uma pequena parte dos profissionais. Essa exposição reflete uma crise no ensino da Medicina além de, no caso concreto, apontar para uma postura machista. Se outrora a Medicina era vocação, atualmente é tida por muitos como um negócio. E quando a saúde e o paciente viram negócio os princípios éticos dão lugar a princípios econômicos que acabam por manchar essa sagrada profissão.